Não seja uma nova BlackBerry!

Não seja uma nova BlackBerry!

17:05 02 March in Gestão de Infraestrutura, Implantação de Soluções, TI Executiva
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O cenário de negócios é volátil, incerto, ambíguo e complexo. A empresa do século 21 tem que estar constantemente se reinventando. Deve ser uma empresa cinética.

Um tema que todos falam é Transformação Digital. Muitos artigos apontam como serão as empresas no futuro. Mas o futuro não chega pronto e subitamente. Ele é construído passo a passo. Primeiro, aparecem sinais esparsos e aparentemente desconectados de tecnologias e mudanças sociais. Sem uma visão de contexto, não conseguimos correlacionar um ponto com outro. Só depois de algum tempo é que observamos que eles formam um padrão e que a transformação é fruto da convergência de diversas tecnologias. Portanto, olhar tecnologias como Inteligência Artificial, cloud, mobilidade, Internet das Coisas, robótica, Realidade Virtual/Realidade Aumentada, drones, etc de forma isolada não vai nos dizer muita coisa. A combinação delas é que irá provocar as mudanças. Alvin Toffler, autor de “A Terceira Onda”, afirmava, com razão, que “As novas tecnologias nunca vêm sozinhas. É um pacote: mudanças tecnológicas, seguidas de mudanças sociais, políticas e culturais”.

O grande desafio para as empresas e seus líderes é que estão tão concentrados nos seus desafios diários, que não prestam atenção aos sinais de mudança. E, então, são surpreendidos. Icônico deste cenário é a BlackBerry. A história de sua decadência é um case, até comum, de como uma empresa bem-sucedida não presta atenção aos sinais de mudança. O seu CEO e fundador só soube do iPhone quando assistiu, em casa, a uma propaganda na TV! O artigo Inside the fall of BlackBerry: How the smartphone inventor failed to adapt deve ser lido atentamente. Muitas outras empesas fazem o mesmo. Não seja uma nova BlackBerry!

A evolução tecnológica é exponencial e nossos pensamentos lineares limitam a nossa intuição do futuro. Por exemplo, veículos autônomos. Os sensores LIDAR, que o Google usava em 2009, custavam mais de 75 mil dólares. Hoje, estão em torno de 7,5 mil dólares, ou 10% do que custava há pouco mais de sete anos! Que isso significa? Que tecnologias que são consideradas caras hoje, em poucos anos estarão bem baratas e possibilitando lançar produtos e serviços inovadores no mercado.

A leitura do artigo Google’s new self-driving minivans will be hitting the road at the end of January 2017 mostra como a indústria automotiva está se transformando. Ele cita a possibilidade da Waymo (empresa spin-off do Google) e a Chrysler criarem serviço similar ao Uber. Na prática, isso mostra que, em poucos anos, será difícil reconhecer empresas hoje classificadas em setores distintos, como automotiva, locadora de veículos, serviços de mobilidade e mesmo seguros. E conectando impressoras 3D, drones e caminhões autônomos, haverá diferenças entre fabricantes de caminhões e as atuais empresas logísticas? Que novos negócios surgirão? Como impactarão os atuais setores, quando as fronteiras entre eles simplesmente evaporam?

Nosso modelo mental, linear e fortemente influenciado pela sociedade industrial, assim como nossa formação acadêmica, nossos modelos e estruturas organizacionais, nossa legislação trabalhista, etc., impõem o conceito de que o futuro é algo que simplesmente acontece, enquanto, na verdade, nós é que o criamos. A reação contra mudanças é muito forte e a crença de que o que deu certo por mais de 30 ou 40 anos continuará dando certo, apenas com pequenos ajustes e melhorias, não funciona em um cenário de mudanças exponenciais. Funcionou na sociedade analógica e linear. Mas não mais na sociedade digital. Estamos, pela primeira vez, nos defrontando com mudanças fundamentais acontecendo durante uma única geração. Isso é algo novo, com o qual ainda não sabemos como lidar.

O iPhone surgiu há dez anos (em 9 de janeiro de 2007) e, hoje, temos negócios inimagináveis em 2017, provocado pelo simples fato de termos a Internet no nosso bolso. Surgiram negócios como Uber, Waze, Instagram, Airbnb. Indústrias sólidas desapareceram ou estão perdendo relevância. A empresa estática, criada para a sociedade industrial do século 20, não sobreviverá no século 21. O cenário de negócios é volátil, incerto, ambíguo e complexo. A empresa do século 21 tem que estar constantemente se reinventando. Deve ser uma empresa cinética. Relembrando que a energia cinética é a energia devido ao movimento. É o caso de um corpo que recebe energia em forma de trabalho, e todo este trabalho se converte em energia de movimento. Essa forma de energia é denominada energia cinética. A empresa cinética é aquela em que todo trabalho é focado na sua reinvenção contínua. É uma empresa ágil de ponta a ponta, em constante movimento.

Rei Peão

Olhar para o futuro e começar a construí-lo não é um exercício acadêmico. É questão de sobrevivência empresarial. Por exemplo, se a empresa atua hoje no que chamamos setor de saúde, ficar por fora de tecnologias como IoT, IA, biomedicina, etc, e não as considerar em suas visões de futuro é colocar sua sobrevivência em risco.

A mudança acontece apenas quando o próprio CEO se engaja. Por outro lado, o CIO pode e deve assumir papel importante nesse processo. Se ficar concentrado apenas no dia-a-dia, vai perder sua relevância. Tecnologia está se disseminando pela organização e muitas funções hoje executadas pelo tradicional setor de TI irão ser feitas de outra forma. E, muito provavelmente, fora da atual TI. Um exemplo de obstáculo que muitas áreas de TI provocam nas suas empresas: não usam métodos ágeis. Ora, uma empresa cinética é ágil por natureza, e, se a TI bloqueia essa agilidade com processos e métodos lentos, torna-se um bloqueador- e não agregador- de valor.

Para fazer a transformação digital, é essencial compreender sua essência. Uma verdadeira transformação é uma reinvenção do modelo organizacional (e não o simples deslocar de caixinhas), processos digitais e muito mais ágeis, e uso intenso do conceito de digitalização. A digitalização provoca a desmaterialização, que leva à desmonetização, que potencializa a democratização de uso. O smartphone é um exemplo clássico, pois desmaterializou diversos equipamentos físicos como CDs, gravadores, GPS, câmeras fotográficas, filmadoras, etc, que estão, agora, embutidos em um único dispositivo, o próprio smartphone. A desmaterialização barateou o custo (somem o valor de todos esses equipamentos anteriormente comprados à parte) e democratizou o uso. Comparem o antigo, caro e lento processo de fotografia analógica, com o de hoje, quando vocês tiram milhares de fotos e postam em suas redes sociais, aplicando filtros muito sofisticados, de forma totalmente gratuita. A consequência? Disrupção.

O digital é o futuro dos negócios. E dado que a sobrevivência empresarial importa imensamente para as organizações, tudo o que sua empresa fará será impactado pela mudança para o digital. A transformação digital é, gostemos ou não, a nova regra do jogo. E, para ganhar, temos que jogar esse jogo. Não temos alternativas.

Já em 2011, de autoria de Marc Andreessen, o artigo Why Software Is Eating The World mostrava claramente esse cenário. Hoje, podemos inserir um adendo dizendo que Software will Be Eating Your Back Office, porque, em breve, não terá mais sentido manter custosos back offices analógicos. IA e outras tecnologias irão fazer com que grande parte dos atuais processos seja completamente redesenhada. Recomendo a leitura do estudo The Robot and I: How New Digital Technologies Are Making Smart People and Businesses Smarter by Automating Rote Work, produzido pela Cognizant, que mostra com dados este contexto.

Neste cenário de negócios líquido e em constante transformação, a classificação de empresas de acordo com seu ritmo de adoção de inovações, usada atualmente, que vai de “inovadoras”, em um extremo, a retardatárias, em outro, perde o significado. Uma empresa retardatária terá um ônus tão grande em perda de receitas, clientes e custos maiores, que, simplesmente, será expelida do mercado.

O novo jogo não perdoa empresas lentas. A frase de Klaus Schwab, charmain do World Economic Forum, é emblemática: “Neste novo mundo, não é o peixe grande que come o peixe pequeno. É o peixe rápido que come o peixe lento”.

 

Cezar Taurion

cezar.taurion@iinterativa.com.br

Cezar Taurion é Gerente de Novas Tecnologias Aplicadas/Technical Evangelist da IBM Brasil. Profissional e estudioso de Tecnologia da Informação desde o final da década de 1970, Taurion possui educação formal diversificada: graduação em Economia, mestrado em Ciência da Computação e MBA em Marketing de Serviços, além de vasta experiência profissional moldada pela passagem em empresas de porte mundial.